Apesar de soar estranho para alguns, o termo Rock Opera já passou dos cinquenta anos. Desde seu “nascimento” até os dias de hoje, o estilo se ampliou e rendeu bons frutos, não apenas no “campo” Rock, mas especialmente nas Metal Operas.
Muitos podem discordar da terminologia Ópera, pelos trabalhos conterem muitas vezes características de um Musical, mas vamos ser honestos, Metal Opera soa bem mais legal que Metal Musical, certo? Lembrando também que aqui tentamos evitar confundir uma Ópera com um trabalho Conceitual, mesmo que muitas vezes as coisas soem parecidas.
Selecionamos 6 desses formidáveis trabalhos para apresentar ou relembrar aqui, tomamos a liberdade de mesclar tanto Rock quanto Metal, em nenhuma ordem específica. Deixem seu Pavarotti interior sair e aproveitem o show.
Jesus Christ Superstar (1970)

Considerada uma das primeiras Rock Opera do planeta, ‘JCS’ foi escrita pelos gênios Andrew Lloyd Webber e Tim Rice e lançada oficialmente em 1970. Em seu cast original, ninguém menos que Ian Gillan (Deep Purple) era Jesus e sua performance foi magistral.
Mas minha montagem favorita não é essa, mas sim a de 1973, que se transformou em um filme e conta com Ted Neeley e Carl Anderson como os definitivos Jesus e Judas, respectivamente. Não consigo contar quantas vezes já ouvi e/ou assisti esse trabalho.
Ainda hoje no mundo todo existem montagens incríveis de maior e menor porte desse trabalho, deixo como destaque o trabalho do banda alemã Vanden Plas, que além de produzir a peça em seu país, também disponibilizou uma versão de ‘Gethsemane’ no álbum ‘Christ 0’.
William Shakespeare’s Hamlet (2001)

Esse trabalho tem um lugar especial no coração desse que vos escreve. Foi a primeira vez que vi uma movimentação tão grande e tão legal dentro do circuito de bandas nacionais de Metal. Organizada pela história Die Hard, ‘Hamlet’ é a primeira Ópera Metal brasileira e contou com um trabalho muito intenso por parte da produção.
Lançada em 2001 e marcada imortalmente nos anais da Música Pesada brasileira, ‘Hamlet’ foi concebida de uma forma diferente: ao invés de cada vocalista assumir um papel e interpretá-lo pelo disco, cada banda recebeu uma faixa e toda a liberdade para criar o que gerou um trabalho de certa forma heterogêneo – no bom sentido – que desafiava o ouvinte a cada música executada. Menção também para os interlúdios e pelo gran finale que contou com todos cantando e uma participação especial do Maestro Andre Matos.
Infelizmente o disco está esgotado oficialmente e para quem não quer pagar caríssimo no CD e evitar dar dinheiro pra comerciante espertinho finalmente esse ano temos o lançamento dele no Spotify.
Virgin Steele – The House Of Atreus (1999)

Quando Atreus ainda era um respeitado nome da Mitologia Grega e não um adolescente chorão (desculpem, não aguentei não referenciar) o Virgin Steele lançou sua ópera baseada na Tragédia de Atreus (ou Atreu no Brasil) e sua família, que conta com nomes mais famosos do público, Agamemnon e Menelau, logo após a Guerra de Tróia.
Dividido em dois atos e três CDs, o trabalho pode confundir um pouco quando o tratamos como ópera, já que única voz que ouvimos aqui é do magistral David DeFeis que interpreta todos os papéis. Vai por mim, isso não diminui em nada a qualidade/originalidade do trabalho, nem dele ser tratado como uma ópera.
Musicalmente temos o Virgin Steele em sua melhor fase, mesclando Heavy Tradicional, Power Metal e toques épicos com passagens relacionadas ao folclore musical grego. O mais legal é que esse trabalho foi encenado em Teatros na Europa!
Avantasia – The Metal Opera Pt I (2001)

Acredito que para muitos fãs de Metal, esse foi o primeiro contato com uma Metal Opera e não podia ser diferente já que esse disco chamou muito a atenção na época em que saiu. Não era para menos, já que foi o “trabalho que trouxe o Michael Kiske de volta ao Metal.”
Composto e dirigido pelo talentosíssimo músico alemão Tobias Sammet, esse material é muito mais que apenas a volta do Kiske ao Metal, é um trabalho consistente, poderoso e que conseguiu como poucos extrair o melhor de cada músico em cada faixa. Seria injusto destacar um vocalista, mas não tem como não mencionar a performance magistral do próprio Michael Kiske, de Tobias Sammet e do nosso grande Andre Matos.
Musicalmente temos o suprassumo do Power Metal com pitadas de Prog aqui e ali e sinfonias épicas cá e acolá, tudo executado a perfeição por mais um monte de músicos de alta patente no Metal.
Uma segunda parte foi lançada logo em seguida, mas achei melhor – diferentemente do ‘The House Of Atreus’ – focar só na primeira, pois a segunda, apesar de ótimos momentos, é bem inferior. Depois outras óperas foram lançadas, sempre mantendo a qualidade acima da média, mas pra mim até hoje ‘The Metal Opera pt 1’ é o melhor trabalho do Avantasia.
Ayreon – The Human Equation (2004)

Vou ser sincero, esse não é meu álbum favorito do Ayreon, mas acredito que é o melhor e, digamos, mais acessível (de modo positivo) trabalho para apresentar a genialidade do nosso querido holandês Arjen Anthony Lucassen.
Abandonando um pouco a ficção científica e focando nos sentimentos humanos, Arjen trouxe para ‘The Human Equation’ uma experiência que transcende a música e nos coloca muitas vezes no lugar do personagem, indagando nós mesmo sobre o que somos e como lidamos com sentimentos durante uma crise ou uma perda. Dividido em faixas que representam um dia cada, somos levados a, dia após dia, confrontar nosso superego.
Na parte de vocalistas convidados temos uma performance maravilhosa do canadense James LaBrie, que conseguiu transmitir a mensagem da ópera de forma fenomenal. Isso acompanhado de outros gênios que enriqueceram essa experiência, como destaque os nomes de Mikael Akerfeldt, Mike Baker, Marcela Bovio e Devin Townsend.
Musicalmente o álbum nos brinda com o já conhecido Prog Metal de Arjen, com muita técnica, peso e o uso de sintetizadores ad infintum. Mas aqui neste material podemos sentir também o uso de um pouco mais do Hard Rock do início da carreira do holandês e também de música folk, deixando as coisas mais palatáveis para novos gostos.
Soulspell Metal Opera

Para finalizar esta lista, voltamos ao Brasil para fechar com a ópera Soulspell. Capitaneada pelo talentosíssimo músico Heleno Vale, a saga já está em seu quinto disco de estúdio e nos apresenta uma história épica, baseado em uma história contada por Vinícius Silveira Moreno.
O Soulspell navega por diferentes vertentes do metal, mas encontra no Power e no Prog sua essência. Seus discos são uma verdadeira montanha-russa sonora: riffs potentes, refrãos grandiosos, atmosferas sinfônicas, momentos de delicadeza e muita teatralidade. Tudo amarrado com uma produção que valoriza cada músico e cada detalhe da obra.
No quesito vocal temos aqui a estrutura mais tradicional da ópera: cada personagem é interpretado por um vocalista diferente. E como temos grandes nomes aqui! Com lendas do Metal nacional como Andre Matos, Mário Linhares e Edu Falaschi e gigantes do Metal mundial como Jon Oliva, Ripper Owens e Ralf Scheepers.
Na parte instrumental o nível é tão alto quanto dos cantores com participações de nomes como Kiko Loureiro, Fábio Laguna e Rolland Grapow, além do próprio Heleno que senta a mão sem dó em seu kit de bateria nos oferecendo levadas técnicas e precisas!
Vale mencionar que a trupe lançou um trampo ao vivo maravilhoso e pode ser assistido gratuitamente clicando aqui.
Menções honrosas
Hoje em dia são inúmeros os trabalhos tratados como Metal/Rock Opera, entre os que destaco estão ‘Tommy’ do The Who, lançado em 1969 e considerado oficialmente a primeira Opera Rock (alguns dizem que foi ‘Hair’, mas na minha opinião falta Rock para ser uma Rock Opera) e o todo poderoso ‘The Wall’ do Pink Floyd, mas que é muitas vezes tratado como um disco conceitual, acho que fica meio no feeling de cada um mesmo.
Já pelo lado metálico, me vem a cabeça bons títulos como ‘Missa Mercuria’ que conta com a participação de nomes como DC Cooper e Sabine Edelsbacher, ‘Aina’ com lendas como Glenn Hughes, Michael Kiske, Andre Matos e Thomas Rettke, ‘Beto Vazquez Infinity’ trabalho criado pelo nosso hermano argentino Beto Vazquez, ‘Legend of Valley Doom’ opera criada pelo norueguês Marius Danielsen e conta com nomes como Edu Falaschi, Raphael Mendes e Blaze Bayley e ‘Genius: A Rock Opera’ que tem em seu cast nomes como Daniel Gildenlöw, Eric Martin e Russell Allen.

