Introdução: do Vértigo ao Apocalipse – crônica de uma queda anunciada
O documentário “Apocalipse nos Trópicos”, da cineasta Petra Costa, não deve ser compreendido apenas como uma continuação de sua aclamada obra anterior, “Democracia em Vertigem”. Trata-se de uma evolução dialética, um aprofundamento investigativo que desloca o foco da consequência para a causa. Se “Democracia em Vertigem” narrou com uma intimidade dolorosa a tragédia da derrocada institucional brasileira — o sintoma —, “Apocalipse nos Trópicos” se propõe a diagnosticar a patologia subjacente: a ascensão de um projeto de poder teocrático que forneceu a base ideológica, moral e popular para a ruptura democrática de 2016 e a subsequente eleição de Jair Bolsonaro.
A nova obra surge, em grande medida, como uma resposta sofisticada a uma das críticas mais pertinentes, vinda inclusive do campo da esquerda, ao seu filme anterior. Críticos apontaram que, ao concentrar-se na conspiração palaciana e na crise de representação que levou ao impeachment de Dilma Rousseff, “Democracia em Vertigem” registrou, mas não explicou satisfatoriamente, a emergência de um novo e massivo sujeito social de direita que tomou as ruas do país. “Apocalipse nos Trópicos” aceita esse desafio e mergulha de cabeça na intersecção entre religião e política para encontrar as raízes desse fenômeno.
Esta análise crítica se propõe a dissecar a obra em suas múltiplas camadas. Primeiramente, examinará a assinatura estilística de Petra Costa, argumentando que sua abordagem subjetiva é, em si, um ato político. Em seguida, analisará a representação do poder evangélico, personificado na figura central do pastor Silas Malafaia, e o paradoxo de conceder-lhe um palanque tão proeminente. Aprofundará, também, a contundente autocrítica à esquerda que o filme articula, investigando a tese do “vácuo simbólico” deixado pelos governos progressistas.
Contextualizará a crise contemporânea em uma genealogia histórica mais ampla, que conecta a Ditadura Militar, a influência norte-americana e a Teologia da Prosperidade. Por fim, oferecerá um balanço sobre o legado e as inevitáveis limitações de uma obra que se posiciona não apenas como um registro, mas como um campo de batalha na guerra cultural brasileira.
Capítulo 1: a câmera íntima como Arma Política: a assinatura de Petra Costa e a estética da subjetividade
A marca registrada do cinema de Petra Costa é a fusão indissociável entre o pessoal e o político, uma metodologia que ela aprofunda e ressignifica em “Apocalipse nos Trópicos”. Em “Democracia em Vertigem”, a cineasta utilizou sua própria história familiar — neta de um grande empreiteiro e filha de militantes de esquerda — como um microcosmo para espelhar a polarização e as contradições do Brasil. A narrativa em primeira pessoa, com sua voz poética e melancólica, transmitia a angústia de uma geração que viu o sonho democrático, contemporâneo de sua própria vida, desmoronar em vertigem.
Em “Apocalipse nos Trópicos”, essa subjetividade é mantida, mas seu propósito se transforma. Costa abandona a posição de herdeira de um projeto político fraturado e assume a de uma exploradora em território desconhecido. Sua declarada ignorância prévia sobre as escrituras bíblicas e o universo evangélico torna-se o próprio dispositivo narrativo do filme. A narração em
off, por vezes criticada por uma suposta “fragilidade” , funciona aqui como um mecanismo de estranhamento. Ao se posicionar como uma
outsider que decifra os códigos do evangelicalismo, Costa convida seu público-alvo — majoritariamente urbano, secularizado e progressista — a uma jornada quase etnográfica por um Brasil que, para eles, é frequentemente invisibilizado ou caricaturado.
Essa abordagem, contudo, não está isenta de riscos e críticas. A surpresa da narradora diante da “importância da religião no século XXI” foi apontada como um sintoma de “miopia de classe”, revelando a desconexão de uma certa elite intelectual com o Brasil profundo. No entanto, é precisamente essa honestidade radical em expor seu próprio ponto de vista e suas limitações que, para outros analistas, fortalece a credibilidade de seu relato, em vez de miná-la.
A singularidade da abordagem de Costa fica ainda mais evidente quando contrastada com a de outros documentários sobre o mesmo período, como “O Processo”, de Maria Augusta Ramos. Enquanto Ramos opta por um estilo observacional, distanciado e despersonalizado, buscando uma radiografia institucional na qual a diretora se apaga para que os fatos falem por si , Costa faz o movimento oposto: ela se insere deliberadamente na narrativa como fio condutor e centro de perspectiva. O documentário de Ramos, em seu estilo
cinéma vérité, foca nos procedimentos do impeachment no Congresso, registrando discursos e articulações políticas sem entrevistas diretas ou narração. Já a obra de Costa é ensaística, poética e memorialística, fundindo o pessoal com o político para explorar o impacto emocional da crise e as raízes culturais da ascensão da direita, valendo-se de um acesso íntimo a figuras como Lula e Dilma.
Essa comparação revela que a forma cinematográfica não é neutra. Críticos de esquerda argumentaram que o estilo formal e institucional de “O Processo” espelhava a própria estratégia política do PT, que apostou tudo na luta parlamentar em detrimento da mobilização popular. Aplicando-se uma lógica similar à obra de Costa, sua estética se revela como um argumento político em si.
O filme diagnostica que a esquerda perdeu a batalha das narrativas, do afeto e do sentido para o movimento evangélico. A própria forma do documentário — subjetiva, poética, emocional e focada na construção de uma narrativa pessoal e cativante — se apresenta como o antídoto proposto: um chamado para que a política progressista reocupe o terreno da subjetividade e da disputa por corações e mentes.
Capítulo 2: anatomia de um profeta do poder: Silas Malafaia e o Paradoxo do Palanque
O eixo central de “Apocalipse nos Trópicos” é construído em torno do acesso sem precedentes da cineasta ao pastor Silas Malafaia. A força do documentário reside em sua recusa a retratá-lo como uma simples caricatura de fanatismo religioso. Em vez disso, o filme o revela como um estrategista político-religioso calculista, um mestre da comunicação de massas cujos métodos se assemelham aos do marketing neoliberal.
Através de uma montagem construtivista, que justapõe imagens e discursos de diferentes épocas, Costa expõe a notável volatilidade das alianças de Malafaia. O filme resgata seu apoio a Luiz Inácio Lula da Silva no primeiro mandato, quando o governo petista sancionou leis que beneficiavam a expansão das igrejas, e o contrasta com seu fervoroso e posterior apoio a Jair Bolsonaro. Essa técnica desvela que a lealdade do pastor não é a uma ideologia fixa, mas a um projeto de poder pragmático e de longo prazo.
Esse projeto é decodificado pelo filme para além da figura individual do pastor. A obra introduz o conceito da “Conquista das Sete Montanhas de Influência” — família, religião, educação, mídia, entretenimento, negócios e governo —, uma doutrina que orienta a ação política de setores neopentecostais e na qual a “montanha” da política é um alvo central e estratégico. Ao fazê-lo, “Apocalipse nos Trópicos” eleva sua crítica, mostrando Malafaia não como um ator isolado, mas como o expoente mais visível de um movimento amplo, organizado e com uma agenda teocrática clara.
Contudo, a estratégia de dar tanto tempo de tela a uma figura como Malafaia levanta uma questão espinhosa, apontada por parte da crítica: ao oferecer um palanque tão vasto, o filme não correria o risco de normalizar ou inadvertidamente amplificar sua mensagem?. É aqui que se revela uma das teses mais sutis e arriscadas do documentário. Uma análise atenta percebe uma assimetria intrigante no modo como Costa interage com seus personagens centrais. Enquanto a abordagem com Malafaia é majoritariamente observacional, quase deixando que ele se enforque com a própria corda, a conversa com Lula é marcadamente mais confrontadora, com a diretora pressionando o ex-presidente sobre suas falhas estratégicas com o eleitorado evangélico.
Essa diferença de tratamento não parece ser uma inconsistência, mas a própria manifestação de um argumento central. A cineasta parece operar sob a premissa de que a retórica da extrema-direita religiosa, representada por Malafaia, é tão explícita em suas contradições e em seu projeto de poder que a melhor forma de criticá-la é simplesmente expô-la, sem a necessidade de um debate direto. O abismo não precisa ser confrontado, apenas iluminado. Em contrapartida, a esquerda, representada por Lula, precisa ser interpelada e questionada sobre seus erros, pois é dentro desse campo que reside a esperança de autocrítica e reconstrução. A assimetria no confronto, portanto, não é uma falha metodológica, mas a própria tese do filme em ação: a direita evangélica deve ser exposta em sua busca por poder, e a esquerda deve ser responsabilizada por ter permitido que o terreno ficasse livre para essa conquista.

Capítulo 3: o vácuo da razão: a autópsia da asquerda e a acupação do espaço simbólico
“Apocalipse nos Trópicos” desfere sua crítica mais contundente não contra seus adversários declarados, mas contra o próprio campo progressista. A tese central do filme é a do “vácuo”. Argumenta-se que os governos do Partido dos Trabalhadores, embora tenham promovido uma redistribuição de renda histórica, falharam espetacularmente na dimensão da formação política e da disputa de narrativas. A melhoria material na vida de milhões de pessoas não foi acompanhada de uma compreensão de que aquilo era fruto de políticas de Estado que visavam combater uma desigualdade secular. Nesse vácuo de sentido, quem estava nas comunidades, oferecendo não apenas consolo espiritual, mas também “coaching profissional”, apoio social e um arcabouço moral para entender as transformações do mundo, foram os pastores evangélicos. A esquerda, por sua vez, havia se tornado resignada, conformada com a política do “possível”, esquecendo o fervor de lutar para “mudar as circunstâncias” em si, como fizera no passado.
Essa análise aprofunda uma autocrítica já semeada em “Democracia em Vertigem”. Naquele filme, um dos momentos mais lúcidos é o depoimento do ex-ministro Gilberto Carvalho, que admite o erro estratégico da conciliação de classes (“achamos que podíamos ser amigos dos grandes”) e o abandono da mobilização social (o “pé-fora”) em favor da exclusiva atuação na luta institucional (o “pé-dentro”). “Apocalipse nos Trópicos” retoma essa linha de raciocínio e a expande para o campo cultural e simbólico, sugerindo que o “pé-dentro” do palácio deixou o “lado de fora” — as periferias, as comunidades, o Brasil profundo — órfão de um projeto de futuro que não fosse o da teologia da prosperidade.
O momento que cristaliza essa interpelação ocorre durante a entrevista com Lula, quando Costa o pressiona diretamente sobre a perda do eleitorado evangélico e a ausência de uma estratégia para dialogar com a fé popular. A cena é crucial porque materializa a função do documentário como um espelho crítico para a própria esquerda, forçando sua maior liderança a confrontar uma de suas mais notáveis falhas estratégicas.
Dessa forma, o filme transcende a simples denúncia e se transforma em uma espécie de sessão de terapia coletiva para o campo progressista. Ao dar voz à própria Petra Costa, que se assume como parte de uma elite intelectual que se surpreende com a “importância da religião no século XXI” , o documentário personifica e expõe a desconexão de uma parcela da esquerda com as crenças e os valores que estruturam a vida de grande parte da população brasileira. O filme força esse campo político a encarar seus pontos cegos, a reconhecer que a batalha pela hegemonia não se vence apenas com políticas públicas, mas com a disputa permanente pelo imaginário, pelo afeto e pela dimensão espiritual da existência.
Capítulo 4: genealogia de uma crise anunciada: da Ditadura à Teologia da Prosperidade
Um dos elementos que confere a “Apocalipse nos Trópicos” uma maturidade e uma complexidade superiores às de “Democracia em Vertigem” é sua ambição de traçar uma genealogia histórica para a crise atual. O filme se recusa a tratar a ascensão da direita religiosa como um fenômeno recente ou puramente doméstico. Em vez disso, ele mergulha no passado para demonstrar como o terreno para o bolsonarismo foi pacientemente arado por décadas.
Uma das revelações mais impactantes do documentário é a conexão entre a expansão evangélica no Brasil e interesses geopolíticos norte-americanos durante a Guerra Fria. O filme aponta a atuação do grupo de lobby estadunidense “The Family” (também conhecido como “The Fellowship”), que, segundo a pesquisa da cineasta, enviou missionários ao Brasil com o objetivo de evangelizar congressistas e elites políticas desde os anos 1960, ao longo de toda a Ditadura Militar (1964-1985). Essa informação recontextualiza o crescimento evangélico, inserindo-o numa estratégia global de contenção do comunismo na América Latina, onde a fé se tornava uma arma ideológica.
Essa influência externa é conectada à disseminação da “Teologia da Prosperidade”, uma doutrina popularizada por pregadores como Billy Graham, que alinha o sucesso material e financeiro à bênção divina e à fé individual. Essa teologia forneceu uma poderosa justificativa espiritual para a lógica do individualismo e do empreendedorismo neoliberal, minando discursos de solidariedade e de luta coletiva.
Ao estabelecer esse longo eixo histórico, o documentário sutilmente reconfigura a causalidade dos eventos que marcaram a política brasileira recente.
- As Jornadas de Junho de 2013, cuja representação em “Democracia em Vertigem” foi criticada por certa simplificação , podem ser relidas à luz de “Apocalipse nos Trópicos”. Elas deixam de ser a
- causa da ascensão da direita para se tornarem o momento em que um projeto de poder conservador, que vinha sendo gestado por décadas nas igrejas e nos bastidores, encontrou um vácuo de representação e uma massa crítica para se manifestar publicamente com pautas difusas contra a corrupção e os partidos tradicionais.
- A Operação Lava Jato, com seu forte discurso moralista, messiânico e punitivista, e o processo de Impeachment de Dilma Rousseff, marcado por votações em nome de “Deus” e da “família” , deixam de ser vistos apenas como manobras político-jurídicas. Eles se revelam como batalhas cruciais dentro de uma guerra cultural e religiosa que já estava em pleno andamento, na qual a Lava Jato forneceu o pretexto legal e o impeachment foi o ritual de deposição de um poder secular visto como corrupto e imoral.
- Nessa perspectiva, o bolsonarismo não surge como um acidente de percurso ou uma anomalia. Ele aparece como a culminação lógica e a expressão política mais acabada de um processo de longa duração, semeado nas igrejas, financiado por interesses externos e internos, e que encontrou no colapso do sistema político tradicional a oportunidade perfeita para tomar o poder.
Capítulo 5: o Documentário como campo de batalha: Legado, Limites e o Futuro da Esquerda
Em seu balanço final, “Apocalipse nos Trópicos” se consolida como uma obra mais complexa, corajosa e politicamente incisiva que sua predecessora. É um documento histórico indispensável para compreender o Brasil contemporâneo e uma intervenção potente no debate público. Sua denúncia da instrumentalização da fé para um projeto de poder autoritário é um alerta fundamental sobre a fragilidade das fronteiras entre democracia e teocracia no século XXI.
A análise, no entanto, não estaria completa sem o reconhecimento dos limites e riscos inerentes à abordagem de Petra Costa. O debate sobre o perigo de, ao dar voz ao adversário, acabar por “plataformizá-lo” e normalizar seu discurso é legítimo e necessário. Da mesma forma, a crítica que aponta a linha tênue entre a honestidade da subjetividade confessional e um certo solipsismo de classe, que se surpreende com realidades óbvias para a maioria da população, toca em um ponto sensível sobre o lugar de fala da cineasta.
Apesar dessas ambiguidades, o legado mais duradouro de “Apocalipse nos Trópicos” talvez seja o serviço inestimável que presta ao campo da esquerda. O filme a obriga a sair de sua zona de conforto analítica, que por muito tempo relegou a religião a um plano secundário ou a uma mera superestrutura. Ele demonstra, de forma contundente, a centralidade da dimensão simbólica, espiritual e afetiva na política contemporânea e força o início de uma autocrítica dolorosa, mas essencial, sobre o abandono desse campo de batalha.
Diferentemente de “Democracia em Vertigem”, que por vezes foi recebido como um lamento elegíaco por uma democracia perdida , “Apocalipse nos Trópicos” não é um filme sobre o passado. É um mapa detalhado do terreno da batalha presente e futura. Não é um réquiem, mas um chamado às armas para uma guerra cultural e espiritual que, como a obra deixa claro, não se trava apenas nas urnas ou nos palácios, mas na disputa diária pela alma e pelo imaginário de uma nação.
Ao final, “Apocalipse nos Trópicos” não oferece respostas fáceis nem fecha totalmente as discussões. Pelo contrário, ele funciona como um convite ao debate e à reflexão. Com modéstia, sem exagerar em elogios à própria obra, Petra Costa mostra mais uma vez que seu trabalho busca entender profundamente o país, mesmo com todas as limitações de sua própria perspectiva.
Mais do que lamentar o passado, o documentário se propõe a apontar caminhos possíveis para a esquerda, sugerindo que o futuro da democracia brasileira depende de uma disputa real, cotidiana e sensível pelos valores, pelos afetos e pela espiritualidade popular. É uma obra que reconhece as falhas, expõe as feridas, mas deixa clara a urgência da reconstrução de um projeto político progressista capaz de dialogar com as complexidades profundas da sociedade brasileira.

