Para quem, como eu, ama e acompanha Ney Matogrosso há tempos, a notícia de uma cinebiografia foi recebida com uma mistura de euforia e apreensão. Seria possível traduzir em tela a magnitude, a coragem e a singularidade de um artista que é, em si, um acontecimento? ‘Homem com H’, dirigido por Esmir Filho, não apenas responde a essa pergunta com um retumbante “sim”, como também nos entrega um retrato sensível e potente de uma vida que se recusa a caber em qualquer molde.
O filme é uma jornada que nos guia pela trajetória de Ney, desde a infância e a relação conflituosa com um pai militar, até sua consagração nos palcos. É emocionante testemunhar a transformação da dinâmica familiar, que parte da repressão e da violência para, no fim, encontrar um lugar de perdão e admiração. A cena em que o pai, já transformado pela arte do filho, se emociona ao ouvi-lo, é de uma delicadeza ímpar e um dos pontos altos da narrativa.
A passagem pelo Secos & Molhados, embora um dos momentos mais icônicos da música brasileira, é mostrada com a rapidez que a história exige. Essa brevidade é uma decisão narrativa acertada por inúmeros fatores. Primeiro, porque o filme é sobre Ney Matogrosso e sua constante e incansável busca pela liberdade, e sua trajetória é muito maior do que a banda. Segundo, porque a sua saída do grupo não foi amigável, e o filme acerta ao focar no rompimento que o lançou em sua própria jornada.
Como o próprio Ney já relembrou, o “romantismo” da divisão igualitária de lucros acabou quando os compositores perceberam o quanto poderiam ganhar com direitos autorais. Sabendo que era “um maluco que chamava a atenção” e lotava os shows, Ney pediu uma compensação justa pela performance, o que foi negado. Fiel a si, ele preferiu sair a brigar por dinheiro. Considerando os complexos atritos sobre os direitos do nome da banda que existem até hoje, o filme sabiamente trata o Secos & Molhados como o capítulo fundamental que foi, mas sem deixar que ele ofusque a história principal: a do homem que precisava alçar seu voo solo.

A jornada afetiva de Ney também ganha o devido espaço, com destaque para a relação intensa e fugaz com Cazuza, retratando a cumplicidade e as faíscas do encontro de dois dos maiores e mais livres ícones de sua geração.
Um parágrafo à parte, e necessário, é a forma como o filme retrata o impacto avassalador da AIDS nos anos 80 e início dos 90. A narrativa não se furta a mostrar a dor e o luto que ceifaram a juventude daquela época. Vemos a perda de amigos e, de forma especialmente tocante, a de seu marido, o médico Marco de Maria.
O filme dá o devido peso à união dos dois, mostrando o companheirismo de um casamento que durou 13 anos e que foi tragicamente interrompido pela doença. É um lembrete sombrio de um tempo de medo, mas também um tributo à força de Ney, que sobreviveu para honrar a memória de tantos que se foram.

A escolha de Jesuíta Barbosa para viver Ney Matogrosso nas telas foi um acerto divino. Sua atuação é simplesmente maravilhosa, um estudo profundo e meticuloso de cada gesto, cada olhar, cada movimento de palco. Jesuíta não imita, ele encarna. Sua entrega física e emocional é total, e em muitos momentos, esquecemos que estamos a ver um ator e vislumbramos a própria essência de Ney ali presente.

E sim, falemos das cenas de sexo. Incomodou a muita gente? Certamente. Mas é curioso notar que muitos dos que se apressaram em tecer comentários puritanos sobre a nudez e a liberdade sexual mostradas no filme são os mesmos que não piscariam diante de cenas heterossexuais semelhantes. A polêmica apenas reforça a hipocrisia e o preconceito que Ney combateu – e ainda combate – com sua arte e sua existência. O sexo no filme não é gratuito; ele é parte fundamental da identidade e da libertação do artista.
‘Homem com H’ não é um filme feito para chocar por chocar. É, antes de tudo, a biografia linda de um artista fantástico, contada com respeito, admiração e uma sensibilidade que faz jus ao homenageado. É uma celebração da coragem de ser quem se é, em um mundo que insiste em nos dizer o contrário.
Como fã, saio com a certeza de que a história foi honrada. E na mente, ecoa a poesia que sempre definiu seu caminho:
"Eu quero é botar meu bloco na rua."

