A ideia para essa seção é revistar minha coleção de CDs e relembrar de grandes álbuns de bandas nacionais que marcaram e ainda marcam esse velho headbanger. Minha intenção é também sair do óbvio, das mesmas bandas dos anos 80 que todos nós já sabemos que são clássicos e as reverenciamos.
Então pra começar escolhi um disco que me impressiona desde seu lançamento e até hoje, na minha opinião, é insuperável quando se trata de representar a experiência da relação entre o ser humano e a vista de sua morte iminente: ‘VIDA: The Play of Change’, do Imago Mortis. O trabalho foi lançado em 2002 e é o segundo trabalho de estúdio da banda.
Formado em 1995 no Rio de Janeiro, o Imago Mortis mescla como poucos o Doom e o Prog Metal, sempre com composições densas e complexas, girando em temas existenciais e filosóficos. Entre idas e vindas, a banda lançou outros trabalhos de altíssimo nível e pelo que vi, está na ativa novamente e espero de coração ter uma resenha de um disco novo deles aqui n’O Zumbi Caipira.
Qualidade gringa “made in Brazil”
Antes de encherem o saco, quando eu falo de qualidade gringa, quero falar da “embalagem” ou até da qualidade da produção – nunca da qualidade das bandas, músicos e músicas.
Voltando ao assunto. No início dos anos 2000 o Brasil finalmente estava tendo seu boom da busca por essa “qualidade” para seus trabalhos. Muito disso capitaneado pela queridíssima Die Hard, loja e selo paulista, que sempre acreditou e incentivou nossas bandas a buscarem algo mais. Se hoje o buscamos sempre a excelência ao lançar material no Brasil, muito disso se deve aos “moços” Fausto e André da Die Hard. E foi ela que lançou “VIDA” no Brasil.
E a qualidade visual era visível (ok, eu exagerei), não apenas o capricho de impressão e um encarte “gordinho” com folhas “grossas”, mas em todos os detalhes. O responsável por isso foi o artista Rodrigo Cruz que ilustrou e montou um encarte de forma maravilhosa.
Falando em nivelar com os gringos a qualidade da produção, aqui entra outro player importante da época: o estúdio Creative Sound Studio, de São Paulo. Capitaneado pelo produtor Philip Colodetti foi a partir de lá que nossas produções foram conseguindo cada vez mais qualidade e isso impactou diretamente no trampo do Imago Mortis: era o polimento necessário para que músicas e linhas vocais tão complexas tivessem o brilho necessário, lembrando que a produção contou também com o músico/produtor Gustavo Carmo.
Para completar o pacote incrível, o CD ‘VIDA’ ainda conta com uma faixa interativa, ‘The Play Of Change – O Jogo da Mudança’. Esse é um jogo de oráculo, baseado no I Ching e foi criado pelo então baixista Fábio Barretto.
Um mergulho profundo no tema
Outro ponto que impressiona é a parte lírica do disco. O conceito criado pelo grupo e colocado em versos habilmente pelo baixista Fábio Barretto gira em torno da aceitação da morte. Pesquisando pra escrever essa parte da matéria sem falar bosta, encontrei uma entrevista do vocalista Alex Vorhees para o Blog Road To Metal que explica bem o conceito:
“A história é contada na primeira pessoa, através de um personagem que é chamado, simplesmente, de “Me” (“Eu”). O disco começa com este personagem sendo transportado em uma ambulância, onde ele sonha com Caronte, o barqueiro do rio dos mortos, que o avisa de que a morte está próxima. A partir daí o personagem vai atravessando as cinco fases da morte(de acordo com pesquisas da psiquiatra Elizabeth Klubber Ross, há cinco fases distintas que um paciente terminal atravessa antes da morte: Negação, Raiva, Barganha, Depressão e Aceitação) que são apresentadas como cinco atos de uma peça, sendo que cada ato é contado em duas músicas.
“Durante a Negação, ele não consegue aceitar o fato de que irá morrer, que o seu destino seja tão cruel. Na fase da Raiva ele se revolta com a sua condição e descarrega sentimentos negativos como o ódio e a inveja contra todos que não estão doentes como ele.
“Durante a Barganha, o personagem faz de tudo para prolongar um pouco mais sua vida, vale até acender uma vela pra Deus e outra pro Diabo… mas nada disso adianta, e ele acaba entrando na Depressão ao finalmente perceber tudo o que já perdeu e o que ainda falta perder: a própria vida. A última fase, a Aceitação, é quando o personagem entra no verdadeiro esvaziamento emocional que acompanha a morte.”
A entrevista, de 2010, é ótima e pode ser conferida na íntegra clicando aqui.
Se não bastasse isso, foram feitas entrevistas com pessoas reais que estavam em estado terminal. Não deve ter sido algo fácil de se fazer.
Acima de tudo… Música
Claro que nada disso seria interessante ou importante se o conteúdo principal do disco não estivesse no mesmo patamar: a música. Vai por mim, é aqui que realmente o trabalho se destaca. Mesmo sendo apenas o segundo disco de estúdio dos caras, a maturidade passada aqui é de dar inveja em banda véia de guerra.
As composições realmente nos transportam para situações e sentimentos que estão acontecendo no disco naquele momento. Dá pra sentir dor, angústia, medo a cada acorde, a cada batida. Nada aqui é exagerado ou fora de lugar. Cada faixa fala e completa a outra de forma precisa.
Até seria injusto destacar um músico ou outro, porque realmente TUDO está perfeito e executado com maestria, mas também seria injusto não destacar os vocais de Alex Vorhees. Oficialmente seu debut com a banda, Alex trouxe a interpretação musical para outro patamar, ele consegue converter tudo que falamos até aqui em sentimentos reais, profundos e densos, até hoje me arrepio quando ele entona “The Silent King”. Eu poderia ficar elogiando esse cara por horas.
‘VIDA: The Play Of Change’ é simplesmente necessário para qualquer fã de música, independente do estilo. Uma obra-prima da música nacional.
“Triste parto
Sonho de um sonho que se desfez
Dormir, talvez, e não ser mais
Vida que jaz num retrato
De onde não me vês, não mais estás”

